quinta-feira, 17 de julho de 2014

Dinho Ouro Preto: 'Estou sem maconha e álcool há um ano. Fujo das tentações

Em sua casa, na zona sul de São Paulo, Dinho Ouro Preto, 50 anos, cantarola o refrão da nova música, Viva a Revolução. A frase, relacionada às manifestações ocorridas no país em junho passado, também poderia referir-se à transformação na vida do vocalista do Capital Inicial. Em agosto de 2013, ele cortou o álcool e a maconha. Drogas pesadas já não fazem parte do dia a dia de Dinho há mais de dez anos. Hoje o cantor, que nasceu no Paraná e se lançou na música quando morava em Brasília, tem uma rotina tranquila ao lado da mulher, a arquiteta Maria Cattaneo, 48, e dos filhos, Giulia, 17, Isabel, 15, e Afonso, 11. Todas as manhãs ele corre 5 quilômetros, faz uma hora e meia de exercícios e passa a maior parte do dia em seu estúdio compondo. Nos shows, a única garrafa no palco é a de água. "Fujo das tentações. Quando acabam as apresentações, saio do camarim", diz. Este mês o Capital Inicial lança o CD Viva a Revolução. Por que esse nome? Quando começaram as manifestações em junho de 2013, eu queria fazer algo que pudesse ser cantado nas ruas. Embora tenha pego o grito de guerra da Revolução Cubana e me considere de centro-esquerda, a ideia não era ter um grito de guerra socialista. Acredito na democracia representativa. No entanto, a frase foi escolhida como título porque foi o que sobrou das manifestações. Ainda temos o desejo de mudança. Só acho que os black blocs são um desserviço ao Brasil. Ano passado tivemos milhares nas ruas, de modo espontâneo, sem liderança e o que eles fizeram foi afugentar as pessoas porque elas desistiram de ir. Elas acham que tudo vai virar pancadaria. O que não tinha dono em junho acabou sendo apropriado por bandeiras e categorias mobilizadas. Seus filhos se interessam por política? Eu levei as meninas à manifestação na Avenida Paulista, era um momento importante. Minha mãe é historiadora, meu pai cientista político, então elas cresceram num ambiente politizado, sempre foram interessadas. Eu confesso que tenho votado nulo desde 2005. Fui petista a vida inteira, depois do mensalão me senti apunhalado pelas costas. Mas quero conhecer os candidatos desta eleição. Já fui à casa do Eduardo Campos, espero conhecer melhor o Aécio Neves e encontrar a Dilma Rousseff. Apesar de o Capital Inicial lançar CDs de tempos em tempos, as músicas mais tocadas ainda são as antigas. É difícil superar essa fase? Toda banda tem seu grande momento. As rádios tocam as músicas novas, mas as pessoas nunca vão se esquecer de Independência, Natasha, Não olhe para trás... Ainda é um desafio conseguir escrever uma música que emplaque dessa maneira. Esse disco novo é um EP (extended play) e possivelmente algumas músicas se sobressaiam. Tem participações do Thiago Castanho (ex- guitarrista do Charlie Brown) e da Cone Crew Diretoria. O Capital tende a certa repetição, então fomos atrás de outros parceiros justamente para dar uma sacudida, uma renovada no nosso som. Você também deu uma sacudida na sua vida. Aos 50 anos, parou com álcool e drogas, certo? Parei de beber, cortei drogas, tudo. Estou mais saudável do que quando tinha 49 anos (risos). Eu me sinto mais novo, me livrei da ressaca. Já é uma bela conquista. Estou sem maconha e álcool há um ano. Café eu cortei há dez, quando parei o tabaco. Todos os dias acordo às 10 horas, corro 5 quilômetros e faço ginástica por uma hora e meia. Depois fico a maior parte do tempo aqui no estúdio, tocando, escrevendo... É o cômodo mais usado da casa. O que te motivou a mudar o estilo de vida? Eu não conseguia mais dormir, a qualidade do sono era horrível, acordava de ressaca... Eu vivo viajando dentro de ônibus, são mais de 100 shows por ano, então é fundamental ter saúde. Fujo das tentações. Quando acabam as apresentações, eu saio do camarim e vou para o quarto do hotel. É um negócio militar, é difícil, mas vale a pena. Não renasci em Cristo. Não quer dizer que se eu for a uma festa não vá beber algo, uma taça de vinho. O auge da loucura foi em 1993? Foram várias fases. Os anos 1980 inteiros e em 1993, quando cheguei ao fundo do poço e saí do Capital. Abusava de tudo, cocaína, ácido, LSD, êxtase, foi uma fase bastante triste da minha vida. Era promiscuidade, drogas e rock and roll. Quando soube, por meio de um amigo, que havia transado com uma mulher portadora do vírus HIV, entrei em pânico. E, olha, sou hipocondríaco. Ela já estava nas últimas, morrendo... Tinha certeza de que tinha aids e só pensava: como vou contar aos meus pais? É incrível que tenha sobrevivido! Foi aí que conheci minha mulher, Maria. Ela me aceitava do jeito que eu era e a tendência foi diminuir com tudo aos poucos.

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